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Os caminhos da retratação histórica: o paradigma da correção e substituição de símbolos
Co-autor: Ademir Resende

Por Amanda D'avila em 10 jul. 2021

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Estátua de Cristovão Colombo sendo derrubada por manifestantes na Colômbia

Nos últimos meses têm sido observada uma grande movimentação por parte de diversas potências sobre o reconhecimento de acontecimentos passados que, até então, eram apenas mais um capítulo da história de glória desses países, mas que agora passam a ocupar um lugar de desprestígio. Governos como o da Alemanha, dos Estados Unidos e o Canadá manifestaram publicamente a correção de termos para a classificação de eventos de violência e massacre, antes divulgados como conflitos entre países, com tipologias adequadas aos contextos de regiões que sofreram opressivas desproporcionais e viram parte de sua população e cultura sendo dizimadas.

Não só chefes de Estados, mas como também a população das regiões colonizadas por potências como essas, têm erguido a voz demandando retratação quanto às violências e opressões exercidas no passado que deixam, ainda hoje, sequelas em sua sociedade. Um dos recursos que vem sendo utilizado nessas manifestações é a destruição de símbolos dessa opressão, representados pela figura física dos colonizadores na forma de estátuas, aos quais se atribui uma função quase que de fundador daquele lugar.

O fator comum a todos esses eventos talvez esteja relacionado a cultura do politicamente correto e as tentativas de criar ao redor do mundo, sociedades mais plurais que além de respeitarem as diversidades, não exaltem passados de opressão e discriminação. As ações populares sob monumentos de figuras controversas são o expoente mais recorrente recentemente e que possuem uma espécie de anseio transnacional.

É importante destacar que o ato de destruir, derrubar, vandalizar ou reformular monumentos não é uma prática recente na história humana. Suas origens podem ser traçadas desde o Egito antigo até as retiradas das estátuas de Stalin com o fim da URSS. O objetivo comum que perpassa tudo isso é, se não o esquecimento da figura exaltada, uma recolocação mais apropriada entre os valores que essa figura do passado representou com os das sociedades atuais.

Para que possamos compreender mais estruturalmente essa questão, precisamos entender o que são monumentos e qual seu papel na nossa sociedade. Só aí então podemos concluir o que os atos de destruição dos mesmos estão visando.

O simbolismo dos monumentos na sociedade

Segundo a definição de Oxford, monumento é uma obra grandiosa, construída com a finalidade de perpetuar a memória de pessoas ou acontecimentos relevantes na história de um grupo. A palavra (monumēntum) de uso arcaico vem do latim e sua origem é associada à memória (memorĭa), ou seja, aquilo que se recorda.

No passado, muitos dos monumentos tinham função funerária e sua proposta era unicamente marcar a vida de indivíduos notórios para determinada comunidade. Contudo, essa perspectiva ganhou uma alteração substancial com as possibilidades que a idealização dos fatos e de indivíduos trouxe. Para Françoise Choay1, a difusão mais ampla da imprensa e a criação das memórias artificiais, moldou grandiosamente a concepção e o olhar sobre um monumento. Memórias artificiais seriam então deturpações dos fatos reais, visando em vezes romantizar ou até mesmo ridicularizar um momento ou fato. A imprensa acaba tendo grande papel em criar essas memórias e difundi-las através de seus veículos de comunicação.

Isso dito, o monumento passou a ser uma exibição pública e notória de narrações históricas - factuais ou não - que se associam fortemente com a identidade da comunidade e exaltam os valores que aquele momento ou indivíduo legou. Mais que um relembrar, o monumento se tornou um exaltar, canonizar publicamente.

As divergências se dão quando o ideal exaltado não contempla com coerência os valores daquela sociedade na atualidade. Algo que analisando as fortes transformações que o mundo passou nos últimos anos pode facilmente explicar o porquê, após tantos anos houve a necessidade de se repensar os “heróis”.

Além disso, o momento de crise institucional, seja nas instituições domésticas ou internacionais, catalisam o processo de reformulação da ordem vigente. O movimento Black Lives Matter e o caso do assassinato de George Floyd foram talvez um estopim recente a toda essa movimentação atual, muito em função da grande cobertura internacional desses eventos.

As manifestações e a quebra do paradigma

Em um mundo em que os atores não-estatais ganham cada vez mais importância e espaço no meio internacional, as manifestações coletivas e a exposição dessas demandas são um importante passo inicial para a formulação de resoluções mais específicas e assertivas.

Nesta fase mais recente, o primeiro movimento por parte dos países que ganhou atenção midiática foi dado pela França, durante o governo Macron, em 2018, reconhecendo o uso de tortura por parte de seus soldados na guerra de independência da Argélia (1954-1962) e decretando a abertura de arquivos em busca de informações sobre desaparecidos.

Já em 2021, esta ação foi seguida pela decisão inédita do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, de classificar o massacre da Armênia pelo Império Otomano (1915) como genocídio. Pouco depois, a Alemanha reconhece também como genocídio a série de assassinatos na Namíbia durante o período de colonização, também no início do século XX, oficializando ainda a disposição de um orçamento de mais de 1 bilhão de euros em ajuda financeira ao país. Outros movimentos vieram na sequência, como o caso do Canadá, envolvendo a Igreja Católica, para assumir a responsabilidade sobre uma série de abusos empreendidos contra crianças indígenas por quase dois séculos.

Seguidos a esses acontecimentos, com ligação direta ou não à eles, espalham-se as notícias da queda de estátuas que marcam simbolicamente as violências ocorridas. Na Colômbia, durante manifestações contra o governo de Ivan Duque, a estátua do principal colonizador europeu do país foi derrubada, como já havia ocorrido também no Chile, em 2019.Em concomitância, no Canadá, durante o feriado nacional “Canada Day”, que comemora a união das três províncias coloniais, outra estátua de um colonizador foi destruída.

A teatralidade - e aqui não usado como algo inverossímil, mas sim como atos de grande atração midiática - de movimentos como a derrubada das estátuas podem ser instrumentalizadas para fazer a população mobilizada crer que de fato, unicamente através desse ato de revisão da exaltação monumental nos espaços públicos, já seria suficiente para solucionar os traumas do passado.

Os efeitos de anos de violência só podem de fato ser sanados através de uma avaliação concreta dos fatos históricos e uma proposta de intervenção que leve em consideração a necessidade em se reparar os afetados, como no caso do investimento de capital alemão para a reestruturação da Namíbia. A devolução de obras de arte à Nigéria por parte da Alemanha é também um ato concreto e profundo de reconhecimento e ação de reparação.

Ainda que haja essa perspectiva crítica, ela se posiciona aqui como estimuladora para que esse processo de reavaliação das estruturas de poder e suas expressões - sejam elas artísticas monumentais ou práticas cotidianas - possam sofrer transformações realmente profundas que amenizem as injustiças cometidas. Essa mobilização comum no meio internacional, devido ao amplo acesso à informações de diversas partes do globo e a consequente coordenação temporal dessa série de movimentos em locais distintos, exercem, sob certa perspectiva, pressão sobre líderes de estado a fins de retaliação, especialmente os que estão à frente de países que levantam a bandeira da democracia. Além disso, somente pelo fato dessas agitações populares saírem das hashtags da internet e se colocarem presentes e agentes nas ruas já representa um sinal de que de fato estruturas podem e devem ser moldadas.

Notas

1 CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Unesp, 2001. Disponível em: https://www.ufjf.br/lapa/files/2008/08/Alegoria-do-patrim%C3%B3nio-Fran%C3%A7ois-Choay.pdf

Referências

https://www.bbc.com/news/world-europe-57279008

https://www.dw.com/en/us-president-joe-biden-recognizes-armenian-genocide/a-57324601

https://www.independent.co.uk/news/pope-to-meet-with-canada-indigenous-amid-demands-for-apology-catholic-church-canada-benedict-xvi-first-nations-rome-b1875690.html

https://www.abc.net.au/news/2021-06-05/trudeau-demands-apology/100193310

https://www.independent.co.uk/news/world/americas/queen-victoria-statue-canada-indigenous-graves-b1876803.html

https://www.bbc.com/news/uk-52954305

https://www.theartnewspaper.com/news/memorials-to-european-colonisers-are-vandalised-and-toppled-in-colombia

https://english.elpais.com/usa/2021-06-29/why-protesters-in-colombia-are-targeting-monuments-of-spanish-conquistadors.html

https://www.rfi.fr/br/europa/20210430-alemanha-vai-devolver-%C3%A0-nig%C3%A9ria-esculturas-saqueadas-durante-per%C3%ADodo-colonial

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/09/franca-reconhece-pela-primeira-vez-uso-de-tortura-na-guerra-de-argelia.shtml https://www.dw.com/pt-br/alemanha-reconhece-ter-cometido-genoc%C3%ADdio-na-nam%C3%ADbia/a-57698290


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