Escurecer página
O que as crises globais deste século dizem sobre a autonomia de decisão dos Estados?
O legado de 2008 e da pandemia da Covid-19 sobre o processo de superação coletivo de crises do mundo globalizado.

Por Amanda D'avila em 07 jun. 2021

123 visualizações

Fonte: Unsplash

 A etapa atual de globalização é resultado de inúmeros processos ocorridos anteriormente na história, em diversas áreas, como as esferas econômica, social, sanitária e política. As normas internacionais estabelecidas, bem como as instituições formadas e as políticas adotadas no passado foram responsáveis por gerar uma interconexão e interdependência entre governos, instituições e indivíduos, refletidas em momentos de estabilidade mas, principalmente, em momentos de crise.

A crise econômica de 2008 foi muito didática em demonstrar essas constatações. A instabilidade no mercado de finanças, em consequência da política imobiliária da principal potência econômica da época, os Estados Unidos, atingiu de maneira unânime outros países com a conta de capital aberta que se mostraram altamente dependentes das boas condições deste. Desta vez, a pandemia do coronavírus se destaca por não ser uma crise de origem econômica direta, mas que, tendo em vista os impactos nas economias dos países e, inerentemente, o choque no setor produtivo global, evidencia como, ainda que de natureza diversa, as crises atuais atingem de forma conjunta os atores do sistema e, consequentemente, demandam a tomada de ações coletivas.

O fenômeno da globalização e as respostas dos Estados nacionais

A fase de globalização em que estamos vivendo está estritamente relacionada à onda de liberalização que marcou a década de 1990. Impulsionada por instituições econômicas internacionais de grande relevância, como o GATT1 e o FMI2, a tendência a liberalizar a economia atingiu diversos países, das mais variadas estruturas políticas e localidades do globo. Essa abertura passou a aumentar as trocas entre eles, ocasionando em diversas mudanças nas políticas econômicas internas, influenciadas agora não só por atores domésticos e instituições políticas nacionais, mas como também pelo sistema político internacional, que passou a exercer uma influência ainda maior.

Ainda que a escolha por uma economia aberta seja uma decisão unilateral dos Estados, a liberalização deixou de ser meramente uma estratégia econômica de governos para constituir um modelo estrutural político e econômico a nível global, alcançando, portanto, a esfera da política. Apesar das exceções, no geral, a resultante deste processo seria um nível tão elevado de integração e interdependência que uma crise neste sistema afetaria, em algum nível, a todos nele contidos. Dessa maneira, as políticas nacionais se veem mais dependentes não só da ocorrência destas crises, mas também das ações a serem tomadas em conjunto para combatê-las.

As crises contemporâneas globais, nesta perspectiva, colocam à prova todo um sistema e sua configuração, incluindo a eficiência de suas instituições, regras e atores diversos, bem como a capacidade de tomada de decisão unilateral dos países, pois estes passam a depender também das ações desses outros. Por isso, mais do que encontrar políticas que visam solucionar os problemas enfrentados, é preciso repensar estas variáveis em um contexto de transformação, como uma possível mudança política no sistema.

As crises internacionais do mundo globalizado

A crise financeira mundial de 2008 é um grande marco da contemporaneidade sobre os efeitos que uma instabilidade a nível sistêmico pode gerar, afetando não somente o nível dos Estados, mas como também o dos indivíduos. Isto é expresso pelo impacto sobre a renda e poupança das famílias, as quais, passado este momento, podem começar a ter uma maior propensão a poupar, a fim de se proteger em novas crises, mas gerando um efeito colateral de redução da circulação de moeda estrangeira no país.

O período ressalta também a dependência dos atores uns dos outros neste contexto de globalização e alto fluxo de capitais. Com a crise, os países, especialmente os emergentes, passam a desenvolver melhores mecanismos de proteção contra os efeitos dela decorrentes, como a tendência em acumular reservas e o retorno mais estruturado do regionalismo econômico, com a criação de instituições econômicas bilaterais e regionais. A partir da primeira, os países pretendem ter maior autonomia da manipulação do câmbio, assim como manter uma reserva capaz de assisti-lo durante uma crise sistêmica. A segunda, por sua vez, visa ser uma forma de resistência à uniformização posta pelo mundo globalizado, promovendo a criação de políticas personalizadas de acordo com as necessidades específicas de cada um, no contexto em que ele se encontra.

Assim como a de 2008, a atual crise da Covid-19 atingiu também os vários níveis, mas, dessa vez, começando pelo do indivíduo até se tornar um problema sistêmico. Especialistas da OCDE3 prevêem que a pandemia trará graves problemas de recessão para a economia pública, além dos efeitos negativos já observados sobre a saúde, o bem-estar e o trabalho das pessoas.

Como também observado na anterior, alguns atores andam em sentido oposto, visando reforçar sua autonomia e independência próprias, ao buscarem soluções individuais para o problema. Apesar do esforço da Organização Mundial da Saúde em divulgar medidas e controle e sugerir políticas que aspiram diminuir os danos provocados pela Covid-19, muitos países optam, ao contrário, por combater a doença de forma autônoma, até mesmo se posicionando politicamente contra a instituição, como é o caso do Brasil, o que se demonstra ser uma ação ineficiente, tendo em vista os severos números das consequências da pandemia no país. Não obstante, estas medidas são rasas e ineficazes, tendo em vista que o mundo do século XXI não está configurado para responder eficientemente a estas medidas unilaterais.

Isso demonstra como as reações contrárias ao processo de globalização, reforçada através da ação individual para tratar um problema coletivo, passa a ser cada vez mais uma exceção e, tendo as crises cada vez mais um caráter global, isto pode se manter constante no futuro. Porém, ainda assim, espera-se que os Estados continuem a investir esforços em estratégias que valorizem, de alguma maneira, sua autonomia nacional de ação e decisão, como já é o caso das instituições regionais.

Notas:

Acordo Geral de Tarifas e Comércio, do inglês “General Agreement on Tariffs and Trade”

2 Fundo Monetário Internacional

3 Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico

Fontes:

BRASIL ameaça deixar OMS e Trump diz que EUA está vencendo a COVID-19. Estado de Minas, 06 jun. 2020.

BRICEÑO-RUIZ, José; HOFFMANN, Andrea Ribeiro. Post-hegemonic regionalism, UNASUR, and the reconfiguration of regional cooperation in South America. Londres: Canadian Journal of Latin American and Caribbean Studies, 2015.

CHIN, Gregory. Remaking the Architecture: the emerging powers, selfinsuring and regional insulation. International Affairs, vol. 86, nº 3, p. 693-715, 2010.

GOUREVITCH, Peter. Politics in Hard Times: comparative responses to international economic crises. Ithaca/Londres: Cornell University Press, p. 17-70, 1986.

MOSCHELLA, Manuela; WEAVER, Catherine. Players, Power, and Paradigms. In: MOSCHELLA, Manuela; WEAVER, Catherine (eds.). Handbook of global economic governance: players, power, and paradigms. Routledge, 2013.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. The world economy on a tightrope. 2020.


A opinião expressa nesse artigo não necessariamente reflete a opinião do DPolitik

Mais em: Crise, Covid-19, Globalização