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Evidenciando a maioria contrária a Bolsonaro
O dia 29 de maio: comentários e análises

Por Caio Ponce de Leon Ribeiro Freire em 30 maio 2021 - atualizado em 30 maio 2021

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Comparação de protesto a favor de Bolsonaro e contra o governo, ambos na Avenida Paulista (São Paulo)

No dia 29 de maio de 2021 quebrou-se o jejum de manifestações de oposição ao governo que se iniciou coma a pandemia no início de 2020. Esse sábado pode ser analisado por diversos ângulos, assim como as repercussões dele também evidenciam as visões de mundo diferenciadas no país.

Antes de tudo, a imagem icônica que tem sido compartilhada nas redes sociais, e também ilustra este artigo, apresenta o primeiro impacto. Pela primeira vez desde o surgimento do coronavírus, ficaram evidentes os números que aparecem volta e meia em jornais sobre os menos de 30% da população que apoia Bolsonaro e a maioria que o desaprova, assim como o governo como um todo. Obviamente, não se confunde aqui a Av. Paulista, palco de grandes protestos, com o Brasil continental. Nenhuma rua de São Paulo, nem a cidade ou o estado representam o país - a despeito do que alguns podem acreditar. Antes de tudo, essa montagem de fotos é ilustrativa da divisão da população brasileira e de suas atitudes em relação ao governo do atual presidente.

Não há uma divisão cinquenta-cinquenta, como alguns creem. A divisão da população brasileira não é nem mesmo polarizada mais. Ela é extremamente clara: a maioria não é a favor do governo Jair Bolsonaro. Não é a favor da pessoa do presidente, de suas políticas, de seus arroubos autoritários e de sua falta de polidez.

A ideia de um país dividido em dois, que existe no imaginário brasileiro desde 2018, tampouco é real. Na verdade, olhando para os resultados das urnas, no primeiro turno, 56 milhões de eleitores preferiram outros candidatos ou nenhum, contra os 49,2 milhões que escolheram o capitão - e uma abstenção de 29,9 milhões. No segundo turno, aqueles que preferiram Haddad ou foram apáticos (com nulos e brancos) somaram 58 milhões contra os 57,7 milhões do capitão com uma abstenção de 31,3 milhões de brasileiras e brasileiros. Aliás, esse é um fenômeno que se observa em 2014 também, onde a vencedora do pleito não teve a maioria dos eleitores votantes ao seu lado.

Votos acumulados dos vencedores, perdedores e abstenções nas eleições presidenciais desde 2002 nos dois turnos:

Dados do Tribunal Superior Eleitoral

No entanto, durante a pandemia, os números dos apoiadores de Bolsonaro foram caindo cada vez mais. Aqui é importante também fazer a diferenciação crucial nos termos entre aqueles que defendem o presidente e aqueles que são contra o governo. Isso porque, em 2021, parece que os únicos que ainda defendem o governo são aqueles que estão alinhados totalmente à ideologia do presidente e, assim, fazem vista grossa para todas as suas ações ou simplesmente vivem em um "Brasil paralelo". Há mesmo aqueles que não são contra a figura do presidente em si, mas percebem que os desmandos do governo afundaram o país em uma situação ainda mais aprofundada de ruína social, econômica e humana.

Mas, a despeito das pesquisas de opinião, o sábado 29 foi necessário para que essa fissão ficasse clara. Isso se deve muito à predominância de grupos afeitos ao presidente nas ruas. Durante o período de hibernação daqueles que se opõem ao governo, por motivos óbvios da situação pandêmica no país, grupos bolsonaristas fizeram passeatas e carreatas, muitas delas acompanhadas do próprio presidente e fixando-se em pontos como São Paulo (na Av. Paulista), Rio de Janeiro (berço do capitão) e em Brasília (onde reside atualmente). Por mais que esses encontros recheados de bizarrices contra a ordem democrática - requerendo o fechamento de poderes constitucionais e a prisão de ministros -, adoração a remédios e não raramente com violência contra qualquer um que fosse identificado como "inimigo" tenham minguado ao longo do tempo, a falta de uma oposição nas ruas - até para se fazer a comparação - dava a impressão de que eles eram, de fato, a maioria.

A maioria, porém, estava em casa. Seguindo o isolamento e evitando fazer reuniões nas ruas. Sábado passado rompeu esse silêncio. Muito se compartilhou nas redes sociais o dizer "se o povo protesta em meio a uma pandemia, é porque o governo é mais perigoso que o vírus". E, de fato, o exemplo do dia 29 aqui no Brasil é só o último de outros protestos que ocorreram ao redor do mundo nesse um ano e meio de pandemia. Cabe falar um pouco sobre.

Protestos em meio à covid-19

As ruas não se calaram em muitos cantos do mundo, a despeito da pandemia. Alguns protestos se destacaram na mídia internacional e nacional, normalmente com um tom positivo.

Em maio de 2020, os EUA viram uma onda de protestos fortes que duraram por semanas contra o racismo. Desencadeados pelo assassinato de um homem negro americano, George Floyd, por um policial branco que o enforcou com o joelho até sua morte, os protestos cresceram e tomaram o país, espalhando-se posteriormente por outras regiões do mundo como Europa e Austrália, por meio do movimento "Vidas Negras Importam" (Black Lives Matter). Os manifestantes pedem sobretudo o fim do racismo estrutural na sociedade americana e da violência policial. Este é um exemplo claro de uma situação que afeta a vida de milhões de pessoas naquele e em outros países do mundo e que leva as pessoas de maneira justa às ruas. O tratamento desumano e o assassinato sumário de pessoas que é determinado pela cor da pele de uma pessoa é uma questão anti-civilizatório que ainda impesta muitas sociedades, inclusive a brasileira.

Um pouco mais cedo, em março, israelenses foram às ruas contra a corrupção do governo de Benjamin Netanyahu. Com máscaras e distanciamento, o povo daquele país não se calou frente às denúncias, a despeito das prisões que ocorriam.

Do outro lado do mundo, na Europa, milhões tomaram as ruas em Belarus para protestar contra o ditador Aleksandr Lukashenko que está no poder desde 1994. Em maio de 2020, após mais uma eleição em que a oposição foi impedida de participar de maneira justa e livre e de uma nova vitória cercada de denúncias de fraude, os cidadãos bielorrussos deixaram claro que não estavam satisfeitos com a ditadura e queriam a democracia em seu país. Dentre as pautas dos protestos, havia também a má-administração da situação da covid-19 no país pelo ditador Lukashenko, que também foi um negacionista conhecido no mundo.

Em novembro de 2020, os peruanos foram às ruas contra a destituição do presidente Martín Vizcarra e a tomada do poder pelo presidente do Congresso, Manuel Merino - que reuniu um governo de extrema-direita com ajuda da Marinha do país. Mesmo com a violência e a morte de manifestantes, os cidadãos de nosso vizinho continuaram se manifestando até que Merino renunciou ao cargo cinco dias depois.

Ainda em nossa vizinhança, o Paraguai assistiu no início deste ano a grandes manifestações contra o governo do país. Os paraguaios denunciavam os erros e a má-condução da pandemia pelo presidente Mario Abdo Benítez e pediam seu afastamento. Houve troca de ministros, demissões do governo e uma tentativa de pacificar a população por meio de uma mudança de rumo da administração de Benítez.

Também em janeiro de 2021, os russos foram às ruas do país para protestar contra o governo autoritário de Vladmir Putin. As manifestações classificadas com as maiores demonstrações contra o governo desde 2013 foram desencadeadas após o caso do político opositor a Putin, Alexei Navalny, ter sido envenenado no fim de 2020 e, ao voltar ao país, ter sido preso.

Mais recentemente, foi a vez da Colômbia ter suas ruas tomadas por protestos contra o governo. Aliás, a frase citada anteriormente sobre protestos em meio a uma pandemia se popularizou a partir daqui. Com o pavio tendo sido uma reforma tributária do governo que deixou a população indignada, os manifestantes também expuseram seu crescente descontentamento com os efeitos sociais da pandemia que aumentou o desemprego e a pobreza no país e com a vacinação atrasada.

Mas, não foram apenas protestos que tinham pautas civilizatórias e sociais que marcaram 2020 e o início de 2021. Grupos da extrema-direita e conspiracionistas também foram às ruas lutar contra seus moinhos quixotescos. Nos EUA, grupos de supremacistas brancos e os adeptos do QAnon protestaram contra a "falsa" pandemia e contra a "fraude" na eleição americana - inclusive, chegando ao ponto de tentarem um golpe de Estado contra o Capitólio americano. Na Europa, grupos extremistas também foram às ruas contra as medidas de isolamento, fechamento total e máscaras.

E, bem, o Brasil apresenta situações parecidas às mencionadas anteriormente, seja nos quesitos anti-civilizatórios, como o racismo, como na má-condução da pandemia e também da proliferação de conspiracionistas que se espalham nas terras tupiniquins por meio do "zap".

Porém, durante este um ano e meio, as ruas brasileiras tiveram apenas um dos lados predominando: a extrema-direita bolsonarista a favor do governo e do vírus.

A oposição brasileira, então, diferente daquela em outras regiões do mundo, manteve seu silêncio o máximo que pôde. Mas, ficando cada vez mais claro que os quase meio milhão de óbitos e o atraso nas vacinas foram mais um projeto deliberado que um "erro" do governo do capitão e seus militares assessores, a população chegou num ponto limite de tolerância.

Nesse processo, porém, há um ator importantíssimo que precisa ser analisado: a mídia.

A favor da democracia, sim, mas só até um certo ponto

A mídia é um dos grandes atores políticos nas sociedades mundiais desde que a imprensa tomou força há alguns séculos. O surgimento de outras formas de mídia, como o rádio, a televisão e a internet, potencializaram ao máximo o poder da mídia no dia a dia dos cidadãos de todos os países do mundo. Seja estatal ou privada, é possível observar o viés de todos os meios de comunicação midiáticos da atualidade. A "neutralidade" não existe e nem nunca existiu e sua ausência se evidencia desde o tom dado às matérias publicadas e veiculadas até mesmo à própria visibilidade (ou falta dela) que é dada.

Como citou-se anteriormente, a mídia internacional e brasileira noticiaram (com diferentes graus de visibilidade) muitos desses protestos, dando uma roupagem mais positiva quanto os protestantes pautavam bandeiras contra o racismo, contra a crise climática e contra a má-gestão da pandemia. O tom negativo e de reprimenda aparecia mais latentemente quando os manifestantes da extrema-direita tomavam as ruas para pautar o conspiracionismo, a barbárie e o golpismo.

Esse comportamento é visível entre as mídias ocidentais mais populares em seus respectivos países. Dentro do espectro político, jornais desse tipo se localizam entre a centro-direita e centro-esquerda, havendo eventual convergências de pautas em determinadas ocasiões - normalmente quando essas envolvem valores cristalizados no republicanismo, democracia ou direitos humanos.

A mídia brasileira, porém, apresenta um claro ponto fora da curva quando se trata da democracia e do republicanismo. Essa divergência apareceu de maneira forte neste sábado (29) e domingo (30) em relação às manifestações contrárias ao governo.

Os protestos contra o governo, capitaneados pela esquerda no país, uniram não só quadros e partidos da esquerda, mas também milhares de pessoas insatisfeitas com o governo que não necessariamente sejam de esquerda. Considerando o que foi relatado anteriormente, após uma hibernação de mais de um ano, seria de se esperar que protestos ao redor do país que levaram centenas de milhares às ruas seria a pauta do sábado 29 de maio. No entanto, o silêncio ou a timidez dominaram os canais e noticiários brasileiros.

A Rede Globo, maior canal de televisão do país, não fez os famosos "Plantões Globo", chamadas no meio da programação para divulgar o que estava acontecendo. Não houve repórteres do canal na rua falando com os manifestantes e relatando suas pautas de maneira extensiva como fizeram nos idos de 2014-2016.

O "Jornal Hoje" (JH), às 13h30, usou os últimos três minutos de seu programa de 40 minutos para fazer um balanço geral das manifestações no país. Já o "Jornal Nacional" (JN), o de maior audiência do Brasil, anunciou os protestos na chamada no início do programa e dedicou cerca de cinco minutos para, assim como no jornal da tarde, fazer um balanço com vídeos dos próprios manifestantes, das manifestações ao redor do país e no exterior. O canal de televisão fechada, também do grupo Globo, a "GloboNews" que afirma "nunca desligar para a notícia", reprisou o mesmo vídeo do JH e do JN ao longo do sábado.

Essa atuação da Globo, porém, não foi única. Na verdade, com exceção da rede UOL - que publicou sobre as manifestações já cedo no sábado, acompanhando, porém, notas que repreendiam o movimento -, as maiores mídias do país ou deixaram para apresentar muito tardiamente os protestos (no fim da tarde ou à noite) ou simplesmente fingiram que nada aconteceu. Na manhã de domingo, internautas compararam as capas dos jornais e observaram que, para alguns meios de comunicação, o dia 29 de maio foi apenas um sábado qualquer sem nada de muita relevância no país.

Dos grandes jornais em circulação, apenas a Folha de São Paulo pôs em evidência os protestos em sua página inicial, enquanto o Estado de São Paulo e o Globo trouxeram pequenas notas sobre os protestos e ressaltaram "aglomerações". Ainda, houve uma comparação mais clara das capas do Estadão à época dos protestos contra a então presidente Dilma Rousseff e os protestos contra Bolsonaro:

Jornais estrangeiros, porém, repercutiram já no dia 29 os protestos no Brasil e apresentaram claramente as pautas dos manifestantes contra o presidente da República e sua atuação desastrosa durante a pandemia:

New Gallery 2021/5/30
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  • La Nación:

    La Nación: "Debilitado e um dia de protestos, Bolsonaro busca recuperar a iniciativa"

  • Le Monde:

    Le Monde: "'ele é mais perigoso que o vírus': no Brasil, novas manifestações contra o presidente Bolsonaro"

  • Reuters:

    Reuters: "Brasileiros fazem protestos ao redor do país contra a resposta do presidente Bolsonaro à pandemia"

  • The Guardian:

    The Guardian: "Dezenas de milhares de brasileiros marcham para pedir o impeachment de Bolsonaro"

  • Aljazeera:

    Aljazeera: "Em imagens: dezenas de milhares protestam as ações de Bolsonaro em relação à Covid"

  • CNN:

    CNN: "Dezenas de milhares protestam no Brasil pedindo o impeachment de Bolsonaro e melhor acesso à vacina"

  • Deutsche Welle:

    Deutsche Welle: "Protestos contra a política de Bolsonaro contra o coronavírus "

  • El País:

    El País: "A esquerda do Brasil sai às ruas contra Bolsonaro pela primeira vez na pandemia"

  • France24:

    France24: ""

Balanço do 29 de maio

As lições que se tiram do sábado, 29 de maio de 2021, é que a divisão entre aqueles que aprovam o presidente, sua gestão temerosa da pandemia e seu governo não é mais um mero número oriundo de pesquisas de opinião. A maioria da população brasileira, insatisfeita com o atual governo, mostrou-se absolutamente mais numerosa frente àqueles grupos extremistas que se apoderaram dos símbolos nacionais e defendem a conspiração como base de seu mundo.

Como foi noticiado em um dos jornais, a pauta do impedimento de Bolsonaro volta a assombrar o Planalto, isso porque, se já não bastasse o desastre o que país se tornou e a clareza provida pela CPI da pandemia no Senado sobre as intenções do governo em não trabalhar para diminuir infecções e mortes e prover vacinas à população, o último elemento que faltava foi somado à equação: o povo nas ruas.

Diz-se que a esquerda perdeu a "moral" de acusar o governo de causar aglomerações, agora que tem uma para chamar de sua. Em parte, o argumento é verdadeiro. Claro que, para quem quer arrumar desculpa para dizer que a Terra é plana, qualquer motivo é válido para a relativização. No entanto, o dizer de que a situação é tão aterradora que não dá opção de ficar mais calado, quando chegamos quase ao meio milhão de vidas brasileiras perdidas para um vírus que, hoje, tem vacina que o previna, tem um peso considerável na escolha da oposição (seja esquerda ou não) de ir às ruas e retomar seu local, também usurpado pelos veneradores do atual mandatário.

Há de se notar também, como já exposto, a atuação escrachada da imprensa brasileira que publica dizeres de "amarelo pela democracia", mas esconde de seus leitores a democracia em uma de suas formas mais visíveis. É claro que o viés progressista-liberal das grandes mídias brasileiras é evidenciado já há muito e, portanto, não vem como uma surpresa o que está acontecendo em relação à "cegueira" proposital e à relativização exacerbada, colocando forças do espectro democrático como "tão ruins quanto" forças autoritárias, retrógradas e anti-civilizatórias.

A terceira onda da covid-19, já anunciada há algum tempo, viria e virá independente dos protestos deste sábado - a ver quanto eles impactarão nessa nova onda, de onde saímos de um patamar de duas mil mortes diárias. A extrema-direita, e não é de se duvidar, com apoio de alguns setores da mídia apontará o dedo para o movimento da oposição como grande culpado pela piora da tragédia brasileira - esquecendo-se dos já incontáveis aglomerados com negação do vírus e da vacina sem o acompanhamento de máscaras e do distanciamento, promovidos pelo presidente e seu grupo governista.

Mais a se esperar é a reação que a base bolsonarista dará ao movimento do dia 29 de maio e a leitura que será feita pelos estimados parlamentares das Casas do Congresso, em especial do presidente da Câmara, Arthur Lira, que tem o poder de iniciar o processo de afastamento.

Agora com os dois lados da corda tencionados, veremos se a República do Brasil vai honrar seu nome ou seguir deixando impune aqueles que a afundam cada vez mais no abismo.


A opinião expressa nesse artigo não necessariamente reflete a opinião do DPolitik

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