Escurecer página
A exaltação aos símbolos no bolsonarismo
Os símbolos, referências e analogias ligadas a precedentes históricos perversos no Bolsonarismo

Por Barnabé Lucas de Oliveira Neto em 27 maio 2021 - atualizado em 27 maio 2021

245 visualizações

Bolsonaro marca presença em passeio de motocicleta com apoiadores no Rio de Janeiro. Fonte: André Borges/AFP

Os símbolos importam! Ao contrário daqueles que pensam que os símbolos, mitos, rituais e analogias historicamente construídas não possuem valor prático, este que vos escreve segue a linha dos que consideram importante a reflexão a respeito de tais questões.

Nesse sentido, o fenômeno bolsonarista que tomou conta da política brasileira está infestado de referências, símbolos e analogias que, em sua maioria, estão ligadas a precedentes históricos perversos, leia-se: fascismo, nazismo, movimentos supremacistas e tantos outros precedentes que atentam contra a dignidade humana em suas mais diversas formas.

Um episódio famoso é aquele envolvendo o assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Filipe Martins. Durante a fala do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM), em 23 de março de 2021, Filipe Martins fez o conhecido sinal de “OK” com a mão. Em primeira análise, o gesto parece totalmente inofensivo e indica apenas aprovação ou algo que está bem. Entretanto, o que torna o caso problemático é o fato de que o gesto tem sido crescentemente utilizado por grupos supremacistas brancos, especialmente aqueles dos Estados Unidos, para expressar o que esses grupos chamam de “poder branco”. A situação se torna ainda mais embaraçosa quando lembramos que esses grupos supremacistas são compostos por indivíduos de direita e que possuem uma devoção radical aos supostos “ideais” estadunidenses. Não é segredo para ninguém que essas duas características são encontradas em praticamente todos os bolsonaristas.

O assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Filipe Martins, gesticulando o sinal de "OK" com a mão durante a fala do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM).

Mas basta voltar no tempo para lembrar que tais referências a precedentes históricos abomináveis estão presentes na trajetória do movimento bolsonarista. Lembremos de Roberto Alvim, ex-secretário da cultura de Bolsonaro, o qual usou e abusou de um discurso do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels em seu último ato a frente da Secretaria de Cultura. Em um vídeo capaz de causar vergonha alheia em qualquer pessoa com o mínimo de bom senso, Alvim copiou integralmente um trecho do discurso de Goebbels em exaltação à criação de uma “arte puramente nacional”. Os planos de Alvim de “criação” de uma “arte puramente nacional” naufragaram rapidamente, visto que a repercussão negativa do vídeo levou à sua demissão em 17 de janeiro de 2020.

Outro episódio lamentável se deu em 17 de maio de 2020, quando ex-companheiros de armas de Bolsonaro, quando o presidente era paraquedista das Forças Armadas, foram até o Palácio do Planalto para um encontro com o presidente. Na ocasião, os paraquedistas saudaram Bolsonaro estendendo o braço direito para o alto e gritaram “Bolsonaro somos nós”. Evidentemente, a cena caricata foi lepidamente associada à saudação nazista “Heil Hitler”.

À esquerda, saudação nazista "Heil Hitler". À direita, pParaquedistas saúdam o presidente Bolsonaro com o braço direito para o alto e gritam "Bolsonaro somos nós".

Na esteira do péssimo histórico de referências adotadas pelo bolsonarismo, encontra-se o evento mais recente envolvendo a questão: a manifestação pró-Bolsonaro, com a presença do próprio, que reuniu centenas de motociclistas no Rio de Janeiro. Não demorou muito para o episódio ser associado ao passeio de Benito Mussolini, líder fascista italiano, com apoiadores, realizado em junho de 1933 em Roma.

À esquerda, seminário italiano "La Tribuna Illustrata" retrata o passeio de motocicleta de Mussolini com apoiadores. À direita, Bolsonaro marca presença em passeio de motocicleta com apoiadores no Rio de Janeiro.

Seja de forma intencional ou não, o bolsonarismo está repleto de gestos, atitudes e falas que remetem diretamente a experiências históricas que qualquer ser humano deveria repudiar. Nesse sentido, não é de se surpreender que nesse mesmo grupo político não encontremos manifestações simbólicas de outros tipos, como o simples uso de máscara em meio a uma pandemia. Além de ser um item essencial para evitar a contaminação pelo Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19, a máscara se tornou um símbolo da luta pela vida. Assim, não é novidade o fato de o Presidente da República não ter adotado a máscara como um símbolo importante para este momento, como ficou evidente no próprio passeio de motocicleta com seus apoiadores.

Fontes Consultadas:

https://congressoemfoco.uol.com.br/midia/simbolo-ok-racista-extremista-supremacista/

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/01/em-video-alvim-cita-goebbels-e-provoca-onda-de-repudio-nas-redes-sociais.shtml

https://jornalggn.com.br/editoria/politica/a-referencia-fascista-no-passeio-de-moto-de-bolsonaro/

https://oglobo.globo.com/cultura/roberto-alvim-demitido-da-secretaria-especial-da-cultura-24196589

https://www.youtube.com/watch?v=wYGup9Va6wE


A opinião expressa nesse artigo não necessariamente reflete a opinião do DPolitik

Mais em: direita, Brasil, Bolsonaro