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Cloroquina: a bala de prata da CPI da Covid contra Bolsonaro?
Em menos de um mês de funcionamento, a CPI da Covid no Senado Federal parece ter encontrado a sua principal arma contra Bolsonaro: a cloroquina.

Por Barnabé Lucas de Oliveira Neto em 12 maio 2021 - atualizado em 12 maio 2021

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Comprimidos de medicamentos. Fonte: Unsplash.

No folclore de diversos países, a bala de prata é comumente apresentada como uma das armas efetivas contra lobisomens e bruxas. Tal representação pode ser vista, por exemplo, no filme “Bala de Prata”, de 1985 – obra baseada no livro Cycle of the Werewolf, de Stephen King. No longa-metragem, após descobrir que o responsável pelos assassinatos na pequena cidade de Taker's Mill é um lobisomem, um dos personagens utiliza uma bala de prata para atirar no olho do monstro, que volta à sua forma humana.

Mais do que uma arma efetiva contra monstros do folclore, a expressão “bala de prata” é sinônimo, em diversas culturas, de uma solução simples para um problema difícil. Ao que tudo indica, em menos de um mês de funcionamento, a CPI da Covid-19 já encontrou a sua bala de prata contra o presidente Jair Bolsonaro: a cloroquina.

Não é segredo para ninguém que o presidente Bolsonaro foi o maior dos defensores do uso da cloroquina para o suposto “tratamento precoce” da Covid-19. Da mesma forma, não é segredo que os cientistas de todo o mundo estão alertando sobre os perigosos envolvidos na utilização de medicamentos que não foram devidamente testados para o tratamento contra a Covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, interrompeu os estudos com hidroxicloroquina, cloroquina e remédios para HIV contra Covid-19 em julho de 2020. Atualmente, a OMS não recomenda a utilização de tais medicamentos em casos de Covid-19.

Na contramão de tudo e de todos, o presidente Bolsonaro apostou alto na cloroquina enquanto solução nacional contra a Covid-19. Em junho de 2020, o Exército Brasileiro possuía um estoque de 1,8 milhão de comprimidos de Cloroquina. Em março de 2021, o laboratório militar já havia produzido mais de 3 milhões de remédios, os quais foram enviados aos estados e municípios brasileiros para o suposto “tratamento precoce” contra a Covid-19.

Com esse cenário em vista, não foi necessário nem um mês de funcionamento da CPI da Covid-19 para que a cloroquina - outrora a aposta mais arrojada do Governo Federal no combate ao coronavírus - se tornasse a bala de prata a ser utilizada contra o próprio presidente Bolsonaro. Isso porque, a cada dia que passa, é gritante o fato de que o Governo Federal escolheu uma solução pra chamar de sua em detrimento ao investimento na compra de vacinas e no incentivo ao isolamento e distanciamento social. 

No primeiro depoimento realizado na CPI, do ex-Ministro da Saúde Henrique Mandetta, o depoente afirmou que existia uma minuta de decreto presidencial que propunha a alteração da bula da cloroquina de modo a incluir a indicação do remédio para tratamento da Covid.

Logo em seguida, quando foi a vez do ex-Ministro da Saúde Nelson Teich de depor, este reforçou o desejo que existia no governo de tornar a cloroquina a principal medida de combate à Covid-19. Segundo Teich, o uso da cloroquina foi discutido em uma reunião com o Conselho Federal de Medicina no Palácio do Planalto.

Os relatos fornecidos por Mandetta e por Teich viriam a ser reafirmados, na semana seguinte, pelo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barras Torres, o qual confirmou tanto a existência de uma proposta para alterar a bula da cloroquina por decreto e a ocorrência de uma reunião, no Palácio do Planalto, para discutir tal mudança.

Com isso, é de se imaginar que os senadores da oposição presentes na CPI estejam ansiosos pelo o encontro com o ex-Ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Afinal, foi na gestão de Pazuello que o Governo Federal mudou o protocolo de modo a autorizar a utilização de cloroquina e azitromicina para casos leves de Covid-19.

De toda forma, o que se sabe é que a CPI da Covid já teve efeitos no Palácio do Planalto antes mesmo de sua instalação. Em 22 de abril de 2021, após 337 dias no ar, o Ministério da Saúde apagou a recomendação para uso de cloroquina e hidroxicloroquina nos casos de Covid-19.

Portanto, assim como nos filmes hollywoodianos em que os personagens descobrem, quase que magicamente, que uma bala de prata pode ser utilizada para eliminar a ameaça representada por algum monstro folclórico, a CPI da Covid parece ter logo cedo encontrado a bala de prata a ser utilizada contra Bolsonaro. Ironicamente, essa bala de prata é justamente a maior aposta realizada pelo presidente para o combate à pandemia no país. Tal aposta - em detrimento à compra de vacinas e ao incentivo ao isolamento e distanciamento social – tem custado a vida de milhares de brasileiros.

Fontes consultadas:

https://piaui.folha.uol.com.br/queima-de-cloroquina-pre-cpi/

https://www.who.int/news-room/q-a-detail/coronavirus-disease-(covid-19)-hydroxychloroquine

https://www.who.int/news/item/04-07-2020-who-discontinues-hydroxychloroquine-and-lopinavir-ritonavir-treatment-arms-for-covid-19

https://extra.globo.com/noticias/brasil/exercito-brasileiro-tem-estoque-de-cloroquina-para-18-anos-rv1-1-24500378.html

https://noticias.r7.com/brasil/governo-distribuiu-90-do-estoque-da-cloroquina-feita-pelo-exercito-14032021

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/05/20/governo-muda-protocolo-e-autoriza-hidroxicloroquina-para-casos-leves-de-covid-19

https://piaui.folha.uol.com.br/queima-de-cloroquina-pre-cpi/

https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/05/11/barra-torres-cpi.ghtml


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