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Futebol Brasileiro: um retrato das desigualdades do Brasil
Tido como uma grande paixão nacional, o futebol é um retrato escancarado das diversas desigualdades que atravessam o tecido social brasileiro

Por Barnabé Lucas de Oliveira Neto em 13 out. 2020 - atualizado em 13 out. 2020

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Bola de futebol em terreno rachado. Freepik.

Dificilmente algum brasileiro ou brasileira passará a sua vida sem ouvir ao menos uma vez a famosa afirmação: o Brasil é o país do futebol! De fato, o futebol é uma paixão nacional e o esporte mais praticado no país. Além disso, o Brasil é o único a ter participado de todas as edições de Copas do Mundo realizadas desde 1930, assim como é o único a ostentar cinco títulos da mais importante competição de seleções do mundo. Apesar de todo o prestígio que a camisa canarinha carrega mundo a fora, o futebol nacional é um retrato escancarado das diversas desigualdades que atravessam o tecido social brasileiro. Além de ser um exemplo de como, mesmo naquilo que supostamente desempenha com excelência, o Brasil não consegue se estabelecer como a maior referência no cenário internacional em termos de estrutura e inovação.

O futebol brasileiro nos ajuda a capturar um retrato das desigualdades social, racial, territorial e de gênero que caracterizam o Brasil. No que diz respeito à desigualdade social, o futebol permanece sendo visto como uma porta de saída da pobreza. Na medida em que as grandes estrelas do esporte ostentam salários multimilionários, a modalidade é tida como uma possibilidade de mudança de vida por muitos jovens – especialmente garotos, visto que o futebol feminino ainda sofre com o baixo nível de investimento.

A trajetória de Ronaldinho Gaúcho é tipicamente apontada como um desses casos. Tendo nascido em uma família pobre de Porto Alegre, Gaúcho desde cedo impressionava por sua habilidade com a bola. Começou a sua jornada como amador no Grêmio (Brasil) em 1987, com apenas sete anos. Após passagens pelos times profissionais do Grêmio e do Paris Saint-German (PSG - França), vivenciou o auge da sua carreira como jogador no Barcelona (Espanha), quando foi o melhor do mundo por dois anos seguidos.

Histórias como a de Ronaldinho são comumente apontadas como histórias de superação por meio do futebol. Entretanto, a realidade mostra que estes são relatos raros. Como conclui uma pesquisa de Carlos Heller Mandel, intitulada de Futebol como porta de saída da pobreza? Analisando indivíduos e organizações, existem diversas barreiras que impedem que um jovem cujo rendimento familiar seja inferior ao de um salário mínimo supere as condições sociais por meio do futebol. O próprio sistema de seleção de novos talentos de alguns clubes inviabiliza a participação de jovens de baixa renda, seja pela cobrança de taxas ou pela necessidade de grandes deslocamentos para realização dos testes. Pese ainda o fato de que nem todos os clubes possuem estruturas para alocar jovens jogadores advindos de outros estados ou municípios.

Além de tais questões, é necessário lembrar que o cenário do futebol nacional está muito longe de ser representado pelos pouquíssimos jogadores que atingem o reconhecimento internacional ou pelos clubes que estão na Série A do Campeonato Brasileiro, o mais importante campeonato nacional. Segundo dados de 2014 levantados por uma reportagem do Banco Mundial, dentre os 31 mil jogadores registrados na Confederação Brasileira de Futebol em 2012, apenas 2% recebia mais de 20 salários mínimos mensais. A imensa maioria, 82% dos jogadores, recebia no máximo dois salários mínimos. A parcela de jogadores que recebia menos de dois salários mínimos, em 2012, era superior a proporção de pessoas com menos de dois salários mínimos em todo o Brasil, que segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) era de 68%.

A conta é simples. Uma parcela mínima dos jogadores recebe uma quantidade exorbitante de dinheiro, enquanto a esmagadora maioria dos jogadores tem um rendimento mensal muito baixo. Alinhado a isso, é preciso considerar que, dadas as estruturas dos clubes brasileiros, muitos jovens jogadores não são incentivados a continuarem os seus estudos, o que faz com que o futebol permaneça sendo – até mesmo em condições adversas – a fonte de renda conhecida por esses. Em 2016, dos mais de 600 atletas que disputavam a principal competição nacional (Série A), 15 atletas chegaram ao ensino superior, sendo que apenas seis conseguiram concluir os estudos.

Além da desigualdade social, é gritante a desigualdade racial no meio futebolístico nacional. Embora muitos dos jogadores mais memoráveis do Brasil sejam negros – Pelé, Ronaldinho Gaúcho, Garrincha, Djalma Santos, Amaral, Didi, Leônidas da Silva, Jarzinho, Zizinho e tantos outros -, ainda são poucos negros que ocupam outras posições no futebol, como cargos de técnico, dirigente e presidente.

Segundo levantamento do jornalista Paulo Vinícius Coelho (PVC), os clubes brasileiros deram mais chance a técnicos estrangeiros do que aos negros em 120 anos de futebol. Das doze equipes mais tradicionais do futebol nacional, apenas três (Cruzeiro, Botafogo e Vasco) tiveram mais negros do que estrangeiros comandando as suas equipes.

Em 2019, apenas dois dos 40 técnicos das Séries A e B (as duas principais divisões do futebol nacional) eram negros. À época, Roger Machado era técnico do Bahia e Marcão comandava o Fluminense. Além disso, ainda em 2019, entre os 40 clubes das Séries A e B, apenas um era presidido por um negro, a Ponte Preta. Mesmo assim, cabe notar que Sebastião Arcanjo (Tiãozinho) não chegou à presidência da Ponte Preta por eleição, mas em razão do afastamento de José Armando Abdalla.

Além das desigualdades social e racial, é preocupante a discrepância de tratamento recebido pelo futebol masculino em relação ao futebol feminino no país. O histórico problema a respeito das mulheres no futebol – no Brasil em 1941, o futebol e outros esportes ditos como “incompatíveis com as condições” da natureza da mulher chegaram a ser proibidos pelo Artigo 54 do Decreto-Lei 3.199 -, permanece sendo uma mancha na história da modalidade no país. Em 2019, entre os 52 clubes que disputavam o campeonato brasileiro feminino, menos de 10% assinavam as carteiras de suas atletas, o que impossibilita o acesso destas aos direitos trabalhistas.

Dentro da própria entidade máxima do futebol brasileiro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a desigualdade de gênero se faz presente historicamente. Apenas em 2020 a CBF passou a fazer pagamentos de diárias e premiações iguais entre homens e mulheres nos Jogos Olímpicos, embora o mesmo ainda não vigore para a Copa do Mundo.

Além das questões salariais, ainda é gritante a diferença entre os investimentos no futebol masculino e no futebol feminino no país. Segundo levantamento do jornal Extra, dos 20 clubes participantes da Série A do Campeonato Brasileiro apenas um clube (Santos) investia mais de 1% do seu orçamento anual no futebol feminino em 2019. A falta de tais investimentos impossibilita a criação de melhores estruturas para as atletas, assim como impede o aumento da competitividade entre os clubes e da capacidade de atração de patrocínios por parte das competições.

Por fim, é preciso evidenciar a desigualdade territorial presente no futebol nacional. Considerando apenas a modalidade masculina, dos 20 clubes presentes na Série A do Campeonato Brasileiro, 14 são clubes do Sul e Sudeste. Apenas quatro clubes (Bahia, Ceará, Fortaleza e Sport) são do Nordeste brasileiro. O Norte brasileiro não tem nenhum clube na divisão de elite do futebol nacional. O Centro-Oeste possui dois representantes, o Goiás e o Atlético Goianiense.

Em termos de estrutura e investimento, há também uma grande concentração no Sul e Sudeste brasileiro. Em março de 2020, das 10 maiores folhas salariais da Série A do Campeonato Brasileiro, nove eram de clubes do Sul e Sudeste. Por outro lado, entre as cinco folhas salariais mais baixas, três eram de clubes nordestinos (Fortaleza, Ceará e Sport).

Evidentemente, assim como todas as demais desigualdades, a desigualdade territorial é uma marca histórica. Desde 1959, ano da primeira edição da Taça Brasil – correspondente mais próximo ao atual Campeonato Brasileiro de Futebol -, apenas dois clubes fora do eixo Sul-Sudeste foram campeões nacionais, o Bahia em 1959 e 1988 e o Sport em 1987, este último um título que permanece gerando bastante polêmica no meio futebolístico.

Quando se faz a análise por estado, percebe-se que os títulos da Série A, ou correspondente histórico, dos clubes do estado de São Paulo somam 32 títulos. Em seguida, tem-se: Rio de Janeiro (16), Rio Grande do Sul (5), Minas Gerais (5), Bahia (2), Paraná (2) e Pernambuco (1).

Tais resultados refletem uma concentração do poderio econômico e políticos dos clubes do Sul e Sudeste. Outros são os indicadores que evidenciam como a estrutura dos grandes clubes situados nessas localidades é muitas vezes superior aos de clubes de outras regiões do país. Quando analisamos, por exemplo, quais clubes mais cederam jogadores à Seleção Brasileira em Copas do Mundo – ou seja, em quais clubes os jogadores considerados de excelência do futebol brasileiro em cada época jogavam quando foram convocados para jogar uma Copa do Mundo -, nota-se que entre 1930 e 2014 nenhum jogador convocado para a Seleção Brasileira em Copa do Mundo atuava em times do Norte ou Nordeste brasileiro.

Com a existência de tantas desigualdades em nível nacional, não é de se estranhar que o Brasil, apesar de ser tido como o país do futebol, não é a maior referência no cenário internacional do futebol. Em termos de valor das marcas, o Transfermarket - site que avalia os valores de mercado dos jogadores - estima que existem seis ligas nacionais mais valiosas do que a brasileira. Todas as seis são europeias. Enquanto o valor da Premier League (Inglaterra), liga mais valiosa do mundo, chega a 8,52 bilhões de euros, o site estima que a liga brasileira tenha um valor de aproximadamente 939,7 milhões de euros.

Os valores das ligas refletem um conjunto de outras questões nas quais as demais ligas superam a brasileira: média de público pagante por jogos, aporte financeiro dos patrocinadores, transmissões de televisão, equilíbrio entre as equipes que disputam os campeonatos nacionais, capacidade de atração de grandes estrelas e nível técnico e tático do futebol praticado.

Sendo assim, o futebol nacional permanece como um grande retrato das desigualdades que atravessam o nosso tecido social, bem como mais um símbolo da incapacidade do Brasil em se estabelecer como uma grande referência, em todos os aspectos, naquilo que faz bem. Assim como acontecia quando o Brasil era o maior exportador do mundo de café - e, não por coincidência, não foi o primeiro a apresentar as grandes inovações envolvendo o café, como a criação da primeira máquina de café expresso - o país segue exportando talentos atrás de talentos sem priorizar o desenvolvimento estrutural doméstico.

Há, inevitavelmente, uma tragédia que se repete ao longo da história brasileira: a incapacidade de promover mudanças estruturais que posicionem o país como o nascedouro das grandes inovações, desde o futebol até o plano econômico. Mesmo no futebol, no qual somos um berço de grandes talentos, o país peca em termos organizacionais e na promoção das grandes inovações estruturas e táticas da modalidade. Quem dita como se joga, como se faz e como se ganha o jogo é cada vez mais os grandes clubes do futebol europeu. Ao Brasil, coube vender seus jovens jogadores.

Fontes Consultadas:

A incrível história de Ronaldinho Gaúcho. https://spm365.com/blog/curiosidades/a-incrivel-historia-de-ronaldinho-gaucho/

Campeonato Inglês começa com 8 dos 20 clubes mais valiosos do mundo. https://www.uol.com.br/esporte/colunas/rodolfo-rodrigues/2020/09/12/campeonato-ingles-comeca-com-8-dos-20-clubes-mais-valiosos-do-mundo.htm#:~:text=Contando%20com%208%20dos%2020,elencos%20valem%205%2C18%20bilh%C3%B5es.

CBF anuncia igualdade de pagamento de diárias para as seleções de Marta e Neymar. https://brasil.elpais.com/esportes/2020-09-03/cbf-anuncia-igualdade-de-pagamento-de-diarias-para-as-selecoes-de-marta-e-neymar.html

Clubes brasileiros deram mais chance a técnicos estrangeiros do que aos negros em 120 anos de futebol. https://globoesporte.globo.com/blogs/blog-do-pvc/post/2020/06/12/clubes-brasileiros-deram-mais-chance-a-tecnicos-estrangeiros-do-que-aos-negros-em-120-anos-de-futebol.ghtml#:~:text=Paulo%2C%20nesta%20sexta%2Dfeira.,%3A%20Cruzeiro%2C%20Botafogo%20e%20Vasco.

Copa: Botafogo segue líder entre clubes que mais cederam jogadores à Seleção. http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/numerologos/post/copa-botafogo-segue-lider-entre-clubes-que-mais-cederam-jogadores-selecao.html

Decreto-Lei Nº 3.199. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/del3199.htm#:~:text=exclusivamente%20de%20amadores.-,Art.,%C3%A0s%20entidades%20desportivas%20do%20pa%C3%ADs.

Fla e Corinthians em 1º: ranking das folhas de pagamento da Série A na CLT. https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/mauro-cezar-pereira/2020/03/27/fla-e-corinthians-em-1-ranking-das-folhas-de-pagamento-da-serie-a-na-clt.htm

Graduados da bola: apenas 14 atletas da Série A alcançam ensino superior. http://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/2016/06/graduados-da-bola-apenas-14-atletas-da-serie-alcancam-ensino-superior.html

No orçamento dos clubes, menos de 1% é para o feminino. https://extra.globo.com/esporte/no-orcamento-dos-clubes-menos-de-1-para-feminino-23773201.html

O futebol como porta de saída da pobreza? https://pesquisa-eaesp.fgv.br/publicacoes/pibic/o-futebol-como-porta-de-saida-da-pobreza-analisando-individuos-e-organizacoes

Preconceito: apenas dois dos 40 técnicos das séries A e B são negros. https://www.df.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/futebol-nacional/2019/10/09/noticia_futebol_nacional,64014/preconceito-roger-machado-marcao-unicos-tecnicos-negros-brasileirao.shtml

Salário da mulher no futebol é o mesmo do homem das Séries C e D. https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,salario-da-mulher-no-futebol-e-o-mesmo-do-homem-das-series-c-e-d,70002942049


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