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A rinha americana
O debate da quinta série entre os presidenciáveis da maior potência mundial

Por Caio Ponce de Leon Ribeiro Freire em 01 out. 2020

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Rinha de partidos

O primeiro debate presidencial para as eleições americanas de 2020 ocorreu nesta terça (29). Se se pesquisar "debate presidencial americano" será possível encontrar comentários sobre a apresentação de ontem. Mas, pesquisar "rinha de presidenciáveis" provavelmente também dará os mesmos resultados. Chamado de "monólogo" por alguns, ou "caos" por outros, a verdade é que os noventa minutos de troca de farpas entre Donald Trump (republicanos) e Joe Biden (democratas) foi tudo menos um debate.

O atual presidente americano já havia mostrado como é o seu estilo de fazer debates na eleição de 2016. Nos embates com Hillary Clinton, Trump passava momentos inteiros fazendo monólogos e, no momento de fala de sua adversária, interrompia-a constantemente. Seu vocabulário pobre também é um traço do discurso trumpista (uma análise de discursos inclusive observou que Trump é o presidente com o vocabulário menos desenvolvido entre os últimos 15 presidentes, estando no nível de uma criança de 12 anos¹).

O ex-vice-presidente, Joe Biden, também não ficou muito para trás. Titubeando em suas falas, não conseguia desenvolver seus argumentos e apelava para frases menos rebuscadas como "shut up, man" (cala a boca, cara) ou "would he shush?" (ele vai se calar?). Suas respostas aos comentários ácidos de Trump, quando o moderador pedia que o presidente deixasse seu oponente terminar suas frases, eram igualmente infantis e não pareciam mostrar um candidato forte.

A verdade é que, mesmo para a audiência brasileira já acostumada com debates circenses, o espetáculo internacional do embate dos republicanos e democratas ontem fez com que os embates brasileiros parecessem civilizados. Para muitos, inclusive, veio a confirmação que o sistema de debates brasileiros, talvez devido às dificuldades inerentes ao nosso povo, já é altamente preparado para impedir o que a moderação americana não conseguiu. Um pequeno artifício teria mudado toda a história: um botão de desligar o microfone (de Trump).

Depois de acusações e brigas (até mesmo com o moderador), os dois candidatos falharam em apresentar quaisquer propostas concretas para os EUA. Biden tentou trazer propostas ao olhar para câmera e falar com a audiência, enquanto Trump falava mais alto e o moderador continuava perdendo o controle das falas. Trump continuou acusando o adversário de trazer o "socialismo" para o país, defendendo-se da acusação de que teria sonegado impostos e culpando as notícias falsas da mídia contra seu mandato. Um ponto, porém, ficou marcado da fala do atual presidente: sua incapacidade em condenar grupos de supremacistas brancos.

Colocado contra a parede pelo moderador e por Biden, Trump perguntou qual palavra eles queriam que ele dissesse. E no final soltou: "Proud Boys, stand back and stand by!" (Garotos Orgulhosos, afastem-se e esperem!). Proud Boys é um grupo americano só para homens, neofascista de extrema-direita. Abertamente a favor da violência, antissemita, racista e islamofóbicos, o pedido para "esperar", feito pelo atual presidente, foi respondido pelo atual líder do grupo, Enrique Tarrio, com um "standing by sir. ProudBoys!!!!! I will stand down sir!!!" (esperando Sr. ProudBoys!!!! Eu vou diminuir o ritmo, Sr!!!).

Logo após esta frase, o presidente afirmou que a violência estava localizada na esquerda e que Biden deveria falar contra os Antifa (anti-fascistas). Antifa é um movimento que surgiu na Itália de 1930 como oposição ao Partido Fascista de Mussolini. Teve reverberações na Alemanha com a Antifaschistische Aktion (Ação Antifascista) e nos EUA. É considerado um movimento de esquerda, ou mesmo extrema-esquerda, e comporta normalmente anarquistas, antiautoritários, anticapitalistas, comunistas e socialistas. Grupos antifascistas agem tanto pacífica como também violentamente - como aconteceu no Brasil nos confrontos dos antifascistas e bolsonaristas no meio deste ano.

Talvez este seja o ponto mais forte, e preocupante, do debate. Quando questionados se aceitariam a perda nas urnas e pediriam para que seus eleitores, ou grupos apoiadores, aceitassem a derrota, os presidenciáveis passaram mensagens opostas. Enquanto Biden afirmou que reconheceria a derrota tranquilamente, Trump voltou a denunciar as "fraudes" que estariam acontecendo, pediu para que seus grupos "observassem com bastante cuidado" as seções eleitorais. Trump deu a entender que, caso ele não ganhe, a eleição terá sido fraudulenta e ele "não pode aceitar isso".

Atualmente, as pesquisas apontam para uma vitória de Biden. No entanto, confiar nas pesquisas americanas, após o fiasco que foram em 2016, pode não ser uma boa ideia. A 34 dias da eleição nos EUA, a única coisa que se pode dizer com certeza é de que, a depender do resultado, os Estados Unidos podem se encontrar em uma sociedade perigosamente polarizada ao ponto que as consequências de um "esperem" podem ser gravíssimas.

¹ https://blog.factba.se/2019/10/03/not-stable-genius-again-or-please-stop-making-us-run-this-analysis/


A opinião expressa nesse artigo não necessariamente reflete a opinião do DPolitik

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