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A política cabo-de-guerrista das atuais militâncias brasileiras
Como o importante ato de expressar politicamente tornou-se um cabo de guerra entre a esquerda e a direita brasileira

Por Caio Ponce de Leon Ribeiro Freire em 15 ago. 2020

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Monumento no estado de Mecklenburg na Alemanha.

Vê-se, ao redor do mundo, que a polarização tem se tornado o modo de vida (modus vivendi) de boa parte das militâncias políticas. Em alguns locais, como na Alemanha, grupos de extrema-direita têm saído às ruas para demonstrar sua insatisfação com as medidas do governo, mas também para reavivar o ódio antissemita, xenófobo, antieuropeísta, enfim, antiestablishment.

Em outros locais, como no Brasil, as redes sociais têm sido o palco das pelejas políticas de boa parte das militâncias. Em tempos de pandemia, um lado do debate monopolizou as ruas por um tempo - hostilizando aqueles do outro lado que encontrassem -, apenas para ser confrontado violentamente após meses de silêncio de seus oponentes políticos. Assim, os maiores "confrontos" têm-se dado em plataformas online que, só recentemente, passaram a tentar controlar os conteúdos de ódio publicados tentando se transvestir de "liberdade de expressão". É, porém, nesses ambientes teoricamente livres de regras que começa a se produzir um fenômeno de "cabo-de-guerrismo" por parte das militâncias - de ambos os lados.

Impulsionado pelos fenômenos imediatistas que a rapidez e a saturação de novas informações possibilitadas pela internet promoveram, a polarização política chega ao ponto máximo. É fato que, como bem lembram Chaia e Brugnago (2015), citando Bobbio, a polarização se dá sempre por meio de uma díade, sendo que para que um dos lados exista, ele necessariamente precisa de seu opositor. Assim, é normal que, em um ambiente de polarização política, os opostos se criem para que possam se combater - e, quem sabe, se destruir.

Mas as redes sociais têm dado um quê de leviandade a mais à polarização política. Não é um conhecimento novo que portais como Facebook e Twitter sejam ambientes de proliferação de posições antagônicas. Em um estudo realizado em 2011 por Conover et al., foi possível observar que os usuários do Twitter nos EUA tendiam a criar bolhas de posição política antagônicas. Os autores analisaram os universos dos retuítes (quando alguém compartilha as mensagens que uma outra pessoa postou) e das menções (quando alguém usa uma hashtag (#) para expressar sua opinião sobre um tema que está sendo discutido na rede).

Constatou-se que o universo dos retuítes era muito homogêneo, comprovando que as pessoas tendem a compartilhar apenas informações que reforcem sua opinião ou aquela de sua afinidade política. O universo das menções, porém, mostrou-se heterogêneo - sendo que pessoas de direita e de esquerda conseguiam ver opiniões do outro campo político, chegando até mesmo a interagir com essas pessoas, quando usavam as hashtags. Essa interação, porém, concluem os autores, não sobrepõe a polarização que persiste "a despeito da substancial interação inter-ideológica" (CONOVER et al., 2011, p. 95).

As redes sociais ganharam muito mais espaço na última década, chegando a serem o pivô de denúncias de interferência na democracia de grandes países como Grã-Bretanha, Alemanha e EUA. No Brasil, o movimento não foi diferente. Mas, ao invés de olhar para as ações ilícitas perpetradas por políticos nas redes para minar a democracia, aqui o foco é outro: a militância.

Com a polarização entre "coxinhas" e "petralhas" após as Jornadas de Junho de 2013, é possível "dizer realmente que a dualidade esquerda e direita renasceu no Brasil mais forte do que nunca" (CHAIA; BRUGNAGO, 2015). A necessidade dos dois polos em diferenciar-se do outro foi aumentando gradativamente ao ponto que, hoje, muitos nem mesmo se deem ao trabalho de representar uma oposição forte ao adversário.

Em meio à pandemia, qualquer assunto que vinha à tona tornava-se automaticamente polarizado. Quarentena, fechamento total, uso de máscara, cloroquina. Nesses casos ainda é possível manter um nível de razoabilidade quando se põe automaticamente contra as ações do governo e de sua militância que se mostram extremamente anticientíficos. A questão de ser contra ou a favor alguns desses pontos é tão difícil quanto escolher um lado no "debate" do formato da Terra. A esquerda, no geral, manteve-se ao lado dos estudos robustos, dos métodos e da ciência, enquanto a base direitista do governo baseava-se em "fatos" do WhatsApp e Facebook.

Dentro dos debates da pandemia, porém, é possível observar outros pontos em que a esquerda iguala-se à direita no campo da irracionalidade e da oposição automática. Podem-se usar dois exemplos: a posição em relação à China (local onde se iniciou a pandemia) e à Rússia (primeiro local onde uma vacina foi registrada).

Em resposta à xenofobia endereçada típica do campo bolsonarista, muitos da oposição foram corretamente contra o ódio gratuito aos chineses. A defesa, porém, estendeu-se ao campo político. A China, enquanto oficialmente um país comunista, já é alvo do ódio do compadre de Bolsonaro ao norte do Brasil. O cabo-de-guerrismo se faz, porém, quando aqueles que vão contra os ataques gratuitos da direita, tentam defender a todo custo o Partido Comunista chinês que, segundo relatos, tentou sim esconder a doença. Fecha-se os olhos para atitudes questionáveis do governo de Pequim e parte-se para uma argumentação de "os EUA também esconderam a gripe espanhola" que seria o equivalente da esquerda durante a pandemia à desculpa bolsonarista de "o PT fazia pior".

No caso da Rússia, à desconfiança (não só por parte de bolsonaristas) em relação à nova vacina, o cabo-de-guerrismo se deu na defesa automática do regime de Putin, ignorando o fato do secretismo que ronda a liberação pioneira do medicamento.

É importante frisar que, longe de ser condenável, querer pôr-se contra o ódio e o anticientificismo é não só preferível como louvável, uma vez que a informação segura é uma das melhores armas contra a ignorância (de todas as sortes, mas principalmente a política). No entanto, é preciso ter cuidado na oposição automática que, como o nome adianta, acaba sendo apenas uma briga sem fundamento.

A opinião sobre um assunto, independente da área, é formada por meio de acesso a informações, leitura, discussão e, por fim, a adoção de um posicionamento. A adoção cega de um discurso não só é uma procuração que se dá a outrem para formar sua posição política, como tem um efeito devastador de aprofundamento da polarização.

Quanto mais se radicalizam os polos, mais a democracia sofre. A política, feita por meio de compromissos e concessões, dá lugar à peleja ideológica que não faz melhorar a situação política do país, pelo contrário, agravando-a e deixando uma solução cada vez mais distante. Não há obrigação em discordar de tudo que o oponente político afirma, tampouco concordar. No momento em que só há discordâncias, porém, não há mais oponentes, mas sim inimigos mortais - onde a existência de um é obrigatoriamente hostil à do outro. A desavença dá lugar ao ódio e pode levar à desumanização do outro, transformando, finalmente, o embate verbal em físico.

A ideia não é abrir mão de princípios, aliando-se àqueles que preferem o ódio à racionalidade. Mas basear-se nos fatos, na ciência e no pensamento crítico. O movimento de rebanho é atraente, mas enganoso. Ao entregar sua consciência à massa, o demos se torna oclo. O povo, se torna multidão. E a massa é manobrável, já que tem como base a paixão ao invés da razão.

Independente dos lados políticos, é possível costurar alianças com pessoas de pensamento crítico e, assim, fortalecer o regime participativo, afastando o espectro autoritário. Mesmo porque, como afirmou Bobbio (1994, p. 25) "os autores revolucionários e contrarrevolucionários, e seus respectivos movimentos, têm em comum o pertencimento (...) à ala extremista contraposta à moderada". Ou, em outras palavras, no extremismo, a direita e a esquerda agem lado a lado.

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