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Coronavírus: da “fantasia” à primeira morte registrada no Brasil
Uma semana após o presidente Jair Bolsonaro classificar a pandemia do coranavírus como “uma pequena crise”, o Brasil registrou a primeira morte associada ao vírus.

Por Barnabé Lucas de Oliveira Neto em 18 mar. 2020 - atualizado em 18 mar. 2020

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Ilustração do COVID-19, criada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos

Descoberto em 31 de dezembro de 2019 após o registro de casos na China, o COVID-19 foi classificado como uma pandemia global em 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a própria organização, uma pandemia é a disseminação mundial de uma nova doença. Antes do COVID-19, a última pandemia declarada pela OMS havia sido a influenza H1N1 em 2009, que infectou cerca de um bilhão de pessoas apenas no primeiro ano de detecção.

De acordo com a OMS, os Coronavírus (CoV) são uma grande família de vírus que causam doenças que variam do resfriado comum a doenças mais graves, como a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV) e a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV). A próposito, antes do COVID-19, essas duas outras variantes virais já assombaram o mundo.

Em 2002, a SARS-CoV disseminou-se para mais de 12 países do mundo, infectando mais de oito mil pessoas e causando entorno de 800 mortes. Dez anos depois, em 2012, foi a vez do MERS-CoV, uma variante da família Coronavírus que, segundo dados da OMS, desde 2012 registrou mais de 2,5 mil casos e 858 mortes associadas ao vírus.

Diferentemente da última variante do Coronavírus (MERS-CoV), o que impressiona no COVID-19 não é necessariamente a sua taxa de letalidade, mas a facilidade de propagação do vírus, que em 17 de março já havia contaminado 179.112 mil pessoas e causado 7.426 mortes, sendo 91.779 casos e 3.357 mortes na região do pacífico ocidental.

No Brasil, especificamente, a OMS contabilizava 234 casos confirmados em 17 de março, com uma primeira morte sendo registrada no mesmo dia, a qual ainda não havia sido incorporada ao relatório diário emitido pela organização. (Mais informações a respeito da primeira morte por Coronavírus no Brasil: abra aqui).

Desta forma, os dados dão conta que o Brasil se encontra na fase inicial de propagação do vírus, registrando apenas os primeiros casos de transmissão comunitária, que o ocorre quando as equipes sanitárias não conseguem identificar a origem da contaminação. Neste estágio, é essencial que as autoridades tomem as medidas cabíveis para não gerar uma superlotação futura às unidades de saúde distribuídas pelo país.

O biólogo Carl Bergstrom foi o responsável por mostrar graficamente, por meio de uma adaptação de um gráfico elaborado pelo cientista Drew Harris, como as medidas de controle com vista à redução do contágio são essenciais nos primeiros dias em que a doença circula por um novo país. Neste gráfico, o biólogo mostra a evolução do número de casos (eixo Y - vertical) ao longo do tempo (eixo X - horizontal).

Grafico elaborado pelo cientista Drew Harris e adaptado pelo biólogo Carl Bergstrom, no qual são mostrados dois cenários possíveis de evolução de uma epidemia.

Existem basicamente duas possibilidades de distribuição dos casos ao longo do tempo, as quais podemos chamar de Pão de Açúcar e Morro da Urca, em razão da semelhança do gráfico com os dois relevos localizados na cidade do Rio de Janeiro. O Pão de Açúcar é o cenário que, em tese, o país precisa evitar, uma vez que não há a tomada de medidas de controle a ponto de prevenir que um grande número de pessoas esteja contaminadas ao mesmo tempo, o que sobrecarregaria os sistemas de saúde do país. No segundo cenário (Morro da Urca), as medidas de controle são tomadas de modo que a quantidade de pessoas contaminadas é mais bem distribuída ao longo do tempo, fazendo com que o sistema de saúde consiga absorver melhor o choque causado pela crise sanitária.

Pão de Açúcar, o ponto mais elevado da paisagem, e o Morro da Urca no Rio de Janeiro. Imagem de Carioca em Fuga, Rafael Cardoso.

Dito isto e à luz do gráfico de Bergstrom, é de se considerar preocupante a postura inicialmente adotada pelo Presidente da República do Brasil, Jair Bolsonaro, uma vez que suas declarações e ações têm se mostrado contraproducentes na conscientização da população brasileira a respeito da gravidade do vírus.

No dia 10 de março de 2020, por exemplo, o presidente classificou o momento como uma “pequena crise” e que, ao seu entender, era “muito mais fantasia, a questão do Coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo”. Ironicamente, apenas dois dias depois, em 12 de março, em uma de suas famigeradas lives nas redes sociais, o presidente apareceu utilizando uma máscara. Naquele dia, o Palácio do Planalto confirmara que o secretário de Comunicação da Presidência da República havia contraído o vírus. O secretário havia integrado a comitiva presidencial que viajou para os Estados Unidos na semana anterior.

Para sacramentar a falta de prioridade dada pelo presidente ao tratamento da crise sanitária que o país adentra, no dia 15 de maço o presidente participou de uma manifestação na qual cumprimentou dezenas de pessoas, contrariando assim uma recomendação dada por Luiz Henrique Mandett, Ministro da Saúde do próprio Bolsonaro, para que a população evitasse aglomerações.

Diante de um presidente da república que classifica uma epidemia global de “fantasia”, resta ao povo brasileiro confiar na capacidade de resposta do Sistema Único de Saúde (SUS) para conter os efeitos vindouros do COVID-19 no país. Isto porque, conforme estudo de 2018 realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 70% dos brasileiros não possuíam plano de saúde particular. Se analisarmos somente as classes C, D e E da sociedade, esse percentual é de 77%. Portanto, em um cenário caracterizado pela OMS como a “maior crise sanitária mundial da nossa época” e com um presidente que faz pouco caso para a questão, o maior sistema universal e público de saúde do mundo terá que enfrentar uma de suas maiores batalhas nos seus mais de 30 anos de existência.

Fontes consultadas:

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